Os estudos sobre alimentação e cultura estão cada vez mais presentes nas universidades públicas do país. Os Programas de Pós Graduação de diferentes áreas de conhecimento estão investindo em linhas de pesquisas que permitem aos candidatos investigarem a comida sob uma perspectiva multidisciplinar

De 27 a 29 de abril, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), abrigou o Colóquio Educação, Alimentação e Cultura, promovido pelo Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (NUTES-UFRJ) e o Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC-UFRJ).

Cerca de 200 participantes provenientes de dez estados se reuniram para dialogar sobre Alimentação e Cultura na contemporaneidade. Pesquisadores, estudantes, gestores e professores apresentaram trabalhos acadêmicos com o intuito de associar a aplicação do tema no ensino superior, na educação básica, no ensino de ciências nas práticas de educação e promoção de saúde na escola.

Ao todo, 13 painéis de debates com 39 palestrantes discutiram assuntos como Alimentação, Saúde e Consumo; Educação Alimentar e Nutricional na Escola; Educação, Alimentação e Cultura; e Alimentação e Cultura na formação do Nutricionista. A publicidade de refrigerantes, a representação do corpo feminino na propaganda de alimentos e a relação entre obesidade e tratamento foram alguns tópicos abordados pelos pesquisadores. Para a antropóloga Maria Eunice Maciel (Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ UFGRS), os meios de comunicação influenciam o imaginário e representação social, mas não se trata de perda de autonomia total por parte do consumidor. “O discurso, e não a prática, da indústria alimentícia muda conforme as idéias de estética da sociedade. O que é saudável hoje pode não ser amanhã”, diz.

A nutricionista Rosângela Pereira (UFRJ) falou sobre “Paradigmas da alimentação moderna”, como a abundância de alimentos; o culto ao corpo, a partir do século XX; o medo e a insegurança alimentar; e a conseqüente industrializações das práticas culinárias. “Hoje temos abundância de comida, mas as pessoas têm medo de comer”, explicou, acrescentando que excesso de peso como risco alimentar e transtornos alimentares decorrem da industrialização da comida e do modelo agroindustrial. Entre as perdas advindas da fartura estão a desterritorialização da alimentação e a reinvenção da culinária tradicional. Para os nutricionistas, ela orienta incorporar a experiência do indivíduo, sua história, cultura e origem no tratamento, ao invés de se basear apenas nos nutrientes dos alimentos para prescrever uma dieta.

Shirley Donizete Prado (INU/UERJ) apresentou um mapa superficial, baseado nas informações do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sobre a pesquisa em alimentação nas universidades federais do país. De 400 instituições, foram identificados 23 mil grupos de pesquisas e 104 mil pesquisadores. Desse total, 31 grupos falam sobre alimentação e cultura com 261 pesquisadores em 143 linhas de pesquisa. Num período de 8 anos, a procura pelo tema cresceu 10 vezes em áreas como Antropologia, Saúde Coletiva e  Alimentação e Nutrição. Apesar de os cursos estarem concentrados nas regiões Sudeste (Rio de Janeiro) e Sul (Santa Catarina e Rio Grande do Sul), a pesquisadora Shirley aponta para uma intensificação nas áreas rurais, devido à expansão das universidades.

Entre os programas mais procurados estão Antropologia Social (UFRJ), Saúde (Fiocruz) e Sociologia (UFRGS). Em relação à produção científica, não existem muitas publicações. As pesquisas estão restritas ainda em artigos nacionais e internacionais e capítulos de livros. Em 2000, foram publicados 83 artigos no Brasil e, em 2008, 242. Os artigos internacionais subiram de 8 para 60 nesse período, e os capítulos de livro passaram de 42 para 171, conforme os dados levantados por Shirley. Essa amostra indica que a produção acadêmica sobre Alimentação e Cultura precisa ser escoada em publicações editoriais.

Apesar do crescimento do tema nas universidades, existe insuficiência em relação à conceito, metodologia e análise, justifica a pesquisadora e reforça que o campo está em construção.  As áreas de Antropologia e Saúde Coletiva são as que mais recebem trabalhos sobre o tema. “É preciso aprimorar as disciplinas de cunho humanístico na graduação, investir em bolsas de iniciação científica para a graduação e pós para doutorados”, conclui.

Para a antropóloga Maria Eunice, o encontro foi de alta produtividade, com debates aprofundados, troca ideias e avanços como a discussão do conceito de Alimentação em diferentes áreas. “Este colóquio será um marco. As mesas apresentaram trabalhos interessantes e inusitados. É importante conhecer o que está sendo produzido nas universidades e compartilhar a informação”, diz.

O educador José Arimatea, da Universidade Federal do Ceará (UFC) destacou a inquietação que os pesquisadores têm pela Alimentação como objeto de estudo. “É uma área transversal, discutida a partir de múltiplos olhares como saúde, nutrição, antropologia, educação. Por ser complexo, com múltiplas interfaces, torna-se Impossível uma disciplina dar conta”, explica o professor, do departamento de Estudos Especializados da faculdade de Educação da UFC e do curso de Pós Graduação em Educação.

Arimatea aponta também que o colóquio deu início a um “riquíssimo debate” e elogiou a autocrítica promovida no encontro, onde as áreas de conhecimento expuseram suas limitações, proporcionando aproximação de saberes. Este ano a Federal do Ceará começou o bacharelado em Gastronomia, onde o pesquisador integra o corpo docente. É o segundo do Nordeste. O primeiro começou na Rural de Pernambuco com o tema Gastronomia e Segurança Alimentar.

O coordenador do Colóquio, o sociólogo Alexandre Brasil (NUTES/UFRJ), explica que teve a preocupação de dar conta da diversidade e variedade de trabalhos acadêmicos relacionados com os três principais temas. “As mesas apresentaram visões complementares e, algumas vezes, conflitantes. Com isso, as pessoas que não se conheciam ou apenas só ‘liam’ pelos artigos puderem trocar experiências”, conclui. O quadro apresentado pelos participantes estimula ainda mais o diálogo entre as disciplinas e abre caminho para a  inserção da Alimentação como disciplina regular na Educação Escolar e Superior. A partir do momento em que a comida é tratada nas universidades e escolas com seriedade, tendo investimento na qualificação de professores e aplicação de políticas públicas, as cozinhas regionais e as tradições culinárias se fortalecem, formando cidadãos integrados com sua cultura com consciência e ética alimentar.  Educação, Alimentação e Cultura são ferramentas para que a cozinha seja apreendida pelo aluno como central nas atividades humanas.

Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Edição de imagens: Carolina Amorim
Revisão: Vanessa Souza Moraes

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