“Cozinha de Escritores” é como se chama a ideia que ocupou a Semana Gastronómica de Coimbra que ocorreu entre os dias 3 à 12 de Julho, em mais de 20 restaurantes da cidade. Partindo da descoberta de referências gastronómicas em obras dos escritores Eça de Queirós, Miguel Torga e Cristóvão de Aguiar – com percursos de vida relacionados com Coimbra – foi realizada uma selecção de pratos tradicionais portugueses que foram reinventados com a mestria dos chefes de cozinha dos restaurantes aderentes.

Assim, a população residente e visitante de Coimbra pode degustar preciosas iguarias gastronómicas que já deliciaram Eça, Torga e Aguiar, em contato direto com as respectivas passagens literárias onde surgem mencionadas.

Menus referenciados nas obras dos escritores

Eça de Queirós

Os Petiscos Croquetes
Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquetes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de galinha à noite. In “O Primo Basílio”

Queijo com mostarda, salada, vinagre, sal e rábanos D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda, de salada, de vinagre, de sal, de rábanos e dum leve pó apimentado de Ceilão. In “O Mistério da Estada de Sintra”

As Entradas Empadinhas de marisco
Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por trás deles, emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus letreiros muito coloridos, transparências avermelhadas de gelatinas, amarelidões enjoativas de doces de ovos, e queques de um castanho-escuro tendoespetados cravos tristes de papel branco ou cor-de-rosa. Velhas natas lívidas amolentavam-se no oco dos folhados; ladrilhos grossos de marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco aglomeravam as suas crostas ressequidas. In “O Primo Basílio”

Ovos com chouriço
Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E só me soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como desanuviado, desenvencilhado! Almoçara uma pratada de ovos com chouriço, sublime. Passeara por toda aquela magnificência da serra com pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma cama, uns cabides… E ali estava… In “A Cidade e as Serras”

As Sopas Caldo de galinha com ovo batido
Então Carvalhosa, erguendo-se, enterrando as mãos nos bolsos, declarou que, como orador, interessavam-lhe muito as doenças de garganta; e voltando-se para Sarrotini, com curiosidade condescendente:
― O que bebem ordinariamente os senhores, para clarear a voz?
Sarrotini explicou na sua linguagem, eriçada de francês e diluída de espanhol, que ele tomava um caldo de galinha, com um ovo batido. A Patti, por exemplo, essa era um cálice de Xerez, num copo de soda… In “A Tragédia da Rua das Flores” Sopa de congro

Tal era a cultura, o fino engenho, a influência social dos cozinheiros, que a Grécia, resumindo em símbolos compreensíveis e populares as glórias da sua civilização, celebrou ao lado dos seus sete sábios os seus sete cozinheiros. O maior deles era Aegis, de Rodes, o único mortal que tem sabido assar sublimemente um peixe. Outro era Nereu, de Quio, cuja sopa de congro foi cantada por poetas, e recompensada em toda a Ática com coroas cívicas. “Cozinha Arqueológica”, in Notas Contemporâneas

Os Peixes
Bacalhau à biscainha
Ultimamente, Melchior tomara o hábito de vir jantar com eles: ia então abaixo combinar com o Manuel petiscos espanhóis, arroz à valenciana, bacalhau à biscainha. In “A Capital!”

Salmão frio com molho de salsa e cravo
Mas, justamente, Harbrico espalhava diante dos cavaleiros uma deliciosa e irresistível merenda! Eram gordas perdizes aloiradas, um vasto salmão frio e cor-de-rosa, com um molho de salsa e cravo que perfumava o ar, cestos de pêssegos e uvas, como só há nos pomares de el-Rei… “S. Frei Gil”. In Últimas Páginas

As Carnes Bifes de cebolada
E como o Bento entrava com bifes de cebolada, abancaram. A ceia foi longa. In “A Capital!”

Cabrito assado no forno
À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio teria dedicado uma ode… In “Contos”

Galinha `afogada em arroz húmido´ (rodeada de nacos de bom paio)
No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa alegrava, com a sua toalha muito branca, a louça, os copos reluzindo à luz forte dum candeeiro de abat-jour verde. Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo, e na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz húmido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência suculenta de prato morgado. In “O Crime do Padre Amaro”

Os Acompanhamentos Arroz com favas
Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado ― e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!… Tentou todavia uma garfada tímida ― e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
― Óptimo!… Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia! In “A Cidade e as Serras”

Salada de alface e agriões
Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicória, macela, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigavas-as solenemente, como cumprindo um rito. Elas representavam as amarguras de Israel no cativeiro no Egipto. E Eliezer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual. In “A Relíquia”

Tomates farcies à la Cohen
Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda-feira, Ega teve uma conferência com o maître d´hôtel do Central, em que lhe recomendou muita flor, dois ananases para enfeitar a mesa, e exigiu que um dos pratos do menu, qualquer deles, fosse à la Cohen; e ele mesmo sugeriu uma ideia: tomates farcies à la Cohen…In “Os Maias”

Os Doces (sobremesas) Maçã assada

A S. Joaneira então pôs na mesa um prato covo com maçãs assadas.
― Viva! Não, lá nisso também eu entro! exclamou logo o cónego. A bela maçã assada! Nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica dona de casa, cá a nossa S. Joaneira. Grande dona de casa!
Ela ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados. Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; pôs no prato do cónego, com requintes devotos, uma maçã desfeita polvilhada de açúcar; e batendo-lhe nas costas com a mão papuda e mole:
― Isto é um santo, senhor pároco, isto é um santo! Ai, devo-lhe muitos favores! In “O Crime do Padre Amaro”

Sopa dourada
Depois num pós-escrito ele acrescentava: «O tempo aqui está lindo, o que se pode chamar de rosas, e tua santa tia muito se recomenda, que anda lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis anos que casámos, temos cá o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada.»
Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia Vicência. Há quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa casa! In “A Cidade e as Serras”

Creme crestado

Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundância das travessas de doce; havia creme crestado a ferro de engomar, um prato de ovos queimados, aletria com as iniciais do conselheiro desenhadas a canela. In “O Primo Basílio”

Pêssegos aboborados em vinho
«Ontem ao jantar contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêssegos, sobretudo aboborados em vinho, e a Anica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho de pêssegos da Feitosa, que como se sabe são falados em todo o Portugal… Mil saudades.» In “A Ilustre Casa dos Ramires”

Para depois da sobremesa Café `remexido´ com um pau de canela
Depois, à pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta; ― e reclamava impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mês por um feitor do Dedjah, fervido à turca, muito espesso, que ele remexia com um pau de canela!
― E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?
― Eu?
Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas cavas do colete:
― Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau de canela, rebuscava através da numerosa Civilização da Cidade uma ocupação que me encantasse. In “A Cidade e as Serras”

Chá de erva cidreira
Pude averiguar que o nosso fino Alípio lhe dera uma receita para fazer chá de erva cidreira, que aliviava o Desembargador nas suas digestões monstruosas. In “O Conde d´Abranhos”

Miguel Torga

À Mesa Bom pão, bom vinho
― Não há que ver: onde encontras tu terras como esta? Bom pão, bom vinho, bons ares, e em nossa casa, ao pé da mulher e dos filhos! “Homens de Vilarinho”, in Contos da Montanha

Pão de trigo com queijo
O seu homem estava praticamente em jejum. Queria saber se lhe poderia chegar qualquer coisa. Um migalho de trigo com queijo, ao menos…“A Resurreição”, in Contos da Montanha

Os Petiscos Um pedaço de broa e uma fatia de febra
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. “Natal”, in Novos Contos da Montanha

As Entradas Sardinha salgada
Foi no Doiro, numa cava. Ao meio-dia, a Margarida veio trazer o jantar, e embora a sardinha salgada e o caldo de gravanços tirassem a coragem ao mais pintado, a cara da rapariga desanuviava os horizontes. “O leproso”, in Novos Contos da Montanha

Os Peixes Raia
― Tenho raia ― informou a estalajadeira, a limpar as mãos gordurosas ao avental.
― Fumega?
― Isso é cá comigo… ― respondeu a velha, num sorriso que fazia crescer água na boca.
― Pois venha ela!
“O Lopo”, in Novos Contos da Montanha

A Sobremesa Arroz doce
Com os pretextos mais estapafúrdios, demorava a partida. Conversava, varria, compunha e descompunha a travesseira da cama, comia pires seguidos de arroz doce, e assim encurtava a noite que os dois desejavam do tamanho da estrada de Santiago. Por fim, lá saiu.
“Um coração desassossegado”. In Contos da Montanha

Cerejas
Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me. […]
Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha. “Destinos”, in Novos Contos da Montanha

Peras
Na tal noite da zanga, andavam juntas no adro, felizes da vida, a comer pêras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que não tinham fome nem sede. “Inimigas”, in Contos da Montanha

Cristóvão de Aguiar

Os Petiscos
Petinga frita em banha (em base de pão ázimo) Esperava a Severiana de Jesus, neste instante, tantos anos volvi¬dos, o panelão de água já em chiadeira de fervedura. Havia-o posto ao lume, mentes cernia a farinha de milho. Retirou-lhe o carolo e guar¬dou-o de sua mão. Talvez com ele vi¬es¬se a fazer umas papas para matar um des¬consolo. Ou um bolo assado na sertã de barro. Sem fer¬mento. Ázimo como a hóstia da tran¬su¬bs¬tanciação. Para comer quen¬tinho com charri¬nhos ¬miú¬dos, ou mesmo com pe¬tin¬ga frita em banha. Melhor conduto está ainda por inventar para o bolo da sertã. In ” Marilha”

A Entrada Charrinhos assados na sertã
escusado seria eu andar no meu laricá, cesto ao ombro, futurando tantas lindezas, porque o que me esperava, entra dia, sai dia, era trabalho em riba do lombo e charrinhos assados na sertã, servindo de conduto ao pão de milho enqueijado, ou, se era estação, uma mancheia de araçás ou uma laranja redolha para atestar; In “Raiz Comovida”

A Sobremesa
Ananás
(…) era aí, naquele palacete, que ainda lá está, com ermidinha à ilharga, que a fidalguia estava acostumada a assistir de Maio a Novembro; andava este que aqui está acartando leiva para as estufas de anana¬ses (cada carreto de se ficar derreado), mais quebrado que nem sei, só me apetecia amassar-me debaixo de uma som¬bra e ficar de papo para o ar vendo as nu¬vens a correr no firmamento (caía um marmaço de infernizar corpo e alma, tempo de agonia), mas ainda tinha de penar para despegar do trabalho, o Sol andava a passo de boi, e eu bem que mirava as alturas, mas perdia o meu aço e a minha paciência, […] In “Raiz Comovida”

O Café
Biscoito com manteiga (para servir ao café ou ao chá)
“Empurra, meu rico Gualter, empurra para baixo, olha que o Cidério já vai na segunda talhada de melancia; vê se fazes diligência para acabar o resto do biscoito com manteiga”…In “Raiz Comovida”

Informações retiradas do site http://www.turismodecoimbra.pt