Brigando com o peso, a herdeira do trono brasileiro não dispensava um vatapá, adorava sorvete glacê e ainda visitava a cozinha imperial

Maria de Fátima Moraes Argon

ImagemAo partir para a província do Rio Grande do Sul no ano seguinte ao seu casamento, o conde d’Eu (1842-1922) recomendou à sua esposa, a princesa Isabel (1846-1921), que cuidasse do físico e pensasse em Banting.  Era uma deixa sutil. William Banting fora um marceneiro de renome que, em 1862, aos 66 anos de idade, pesando 100 quilos, se submeteu a uma dieta com restrição de bolos, tortas, doces e açúcar, emagrecendo 40 quilos. Seu nome então tornou-se sinônimo de dieta entre a aristocracia de  ambos os lados do Atlântico.

Em obediência ao marido, a dieta foi um tema recorrente nacorrespondência  da princesa, na qual ela vai dando notícias sobre o seu sucesso e seus pecados contra Banting.Ora diziaque resistiu bravamente a um apetitoso feijão preto, ora que não resistiu à iguaria. Outras vezes, relatou que raramente comia arroz, batata e queijo e que havia comido pão com manteiga, aspargo – um dos seus legumes preferidos – e geleia de laranja.Alegava ser muito difícil manter a dietaem São Cristóvão e, comumente, prometia que no dia seguinte a seguiriacom rigor. O assunto era encerrado de forma romântica e sedutora, dizendo que não só o sistema Banting lhe fazia emagrecer, mas também as saudades que sentia dele, e que perdoasse a sua “cocote” que tanto o amava.

A magreza era odiada nessa época, que valorizava as“curvas femininas”, porém,a gordura era rejeitada não só quando comprometia a saúde, mas também a elegância. Acondessa de Barral (1816-1891)já tinha lhe avisado logo após seu matrimônio que, para agradar o marido, deveria unir “aos dotes do coração e do espírito aqueles do físico”. Tempos depois, a condessa foi ainda mais direta: “Dizem (valha a verdade) que Maninha princesa Leopoldina está cada vez mais gorda! Faço ideia como isso a deve contrariar!”.

Com forte influência europeia, especialmente a portuguesa e a francesa, a dieta da família imperial era composta de uma variedade de produtos importados e do Brasil, incluindo todos os tipos de carnes, aves e peixes. As frutas das mais variadas qualidades eram apreciadas in natura ou em doces caseiros e finos como a rapadura, os doces de batata-doce e de frutas em caldas, croquembouches de amêndoas e o marrom glacê, este último preferido pela imperatriz D. Teresa Cristina (1822-1889), mas que não agradava a D. Pedro II, pois não gostava de castanhas. O imperador era “bom de garfo”, comia muito e depressa, e adorava doces, especialmente os de goiaba. Em 1868, em visita a Campos, a princesa Isabel encomendou dois tipos: as goiabas recheadas para sua mãe e a goiabada de tijolos em folha de banana para o pai. Estavam entre as preferências dele, o mel, o peixe e a canja de galinha. Já a princesa Isabel tinha predileção pelos doces de ovos, sorvetes e bolos, especialmente, o pão de ló. Ela “comia com os olhos”, deleitava-se com os alimentos. Dizia “regalei-me com os morangos”. E entregava-se aos prazeres do vinho nas noites frias de Petrópolis: “chegou uma enorme provisão de vinho e contamos de esquecer os tormentos da solidão entregando-nos às delícias de Baco”.

A princesa Isabel distribuía o seu tempo para atender ao marido, aos filhos, à administração da casa e às exigências sociais. A sua rotina, com exceção dos períodos da regência, era comum aos padrões das mulheres de seu tempo e de seu segmento social. Seu dia começava cedo, assistia à missa, dava passeios e, às nove da manhã, almoçava (era a primeira refeição do dia). Em seguida, se ocupava dos estudos, da correspondência e do cultivo de flores e frutos.

As visitas aos amigos e as atividades sociais e de lazer eram feitas após o jantar, normalmente servido às cinco da tarde. Durante as temporadas em Petrópolis, era hábito entre as famílias aristocráticas a troca de convites para jantar, como forma de consolidar os laços de amizade, e, ao redor da mesa, conversava-se sobre assuntos banais e aqueles ligados aos negócios e à política.

Na intimidade do lar, a princesa se aventurava na cozinha, fazendo bolinhos de aipim apreciados por sua mãe,D. Teresa Cristina,e ensinando sua irmã,D. Leopoldina,(1847-1871),a fazer marmelada. Mas a tarefa cabia mesmo aos cozinheiros, que deviam estar aptos para a execução dos pratos sofisticados servidos nos jantares, saraus e bailes oferecidos pelo casal na maison de Petrópolis e no PalácioIsabel, atual Guanabara, emLaranjeiras. O menu e sua adequação à ocasião e aos convidados era um sinal de que a dona da casa dominava a “arte de receber e bem servir”.

No Palácio Isabel, durante as reuniões simples, o serviço era volante. Na sala eram servidos, em bandejas, sorvetes e chá com docinhos,e bufê com bebidas, enquanto nas grandes festas, nada se servia na sala e eram,então,oferecidos refinado bufê e ceia. O gosto da princesa incorporava pratos populares – ela  adorava os pratos baianos como vatapá e caruru.

Conhecer a intimidade e o cotidiano da família imperial é também conhecer como vivia a classe dominante na segunda metade do século XIX. É uma forma de saber como os padrões de convívio social e civilidade importados da Europa foram sendo incorporados na dinâmica social da sociedade brasileira.

 Maria de Fátima Moraes Argon é pesquisadora do Museu Imperial.

Saiba mais – Bibliografia

KOSERITZ, Carl Von. Imagens do Brasil. São Paulo: Editora da USP, 1980.

MUAZE, Mariana. As memórias da viscondessa: família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

PINHO, Wanderley. Salões e Damas do Segundo Reinado. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1942.

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/comida-de-princesa-balanca-de-plebeia

 

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